A alucinada fábula de Burgess sobre o poder do Estado sobre o indivíduo

Depois que você se acostuma à dificuldade de ficar recorrendo a um glossário para entender os muitos neologismos usados pelo seu narrador-protagonista, Laranja Mecânica não é um livro de leitura difícil. Pelo contrário, sua narrativa é simples e contada em ordem cronológica. O que não quer dizer, no entanto, que a obra de Anthony Burgess não seja exigente com o leitor.

Isso porque, em primeiro lugar, o romance desperta sentimentos contraditórios com relação a seu protagonista e a outros personagens: não existem mocinhos na história. Em segundo, retrata um nível de violência que está muito mais presente na vida das pessoas atualmente e que, talvez por isso, intimide ainda mais do que no passado. Por fim, propõe discussões que estão longe de estarem superadas, 56 anos depois de lançado o livro.

Alex, seu protagonista, se veste de maneira original, gosta de música clássica e usa uma espécie de gíria tão ampla, chamada radsak, que mais parece um dialeto (motivo do glossário no final do livro). Junto a seus três amigos – Georgie, Pete e Tosko – ele frequenta a noite de uma metrópole meio futurista e decadente. Eles vão a lugares como o Laktobar Korova, onde não se tem permissão para vender álcool, mas se comercializa leite batizado com o tipo de droga psicodélica que você quiser.

Até aí tudo bem, mas o grupo tem outra “diversão”: espancar, roubar e violentar. E a primeira parte do livro é dedicada, em grande medida, a uma descrição desses atos em uma longa noite de ação da gangue. Mas ela é concluída, na noite seguinte, com a prisão de Alex pela polícia. Será a vez dele começar o seu calvário, agora promovido pelo Estado. Alex é brutalmente espancado pelos “miliquinhas” e, depois de condenado, vai parar numa penitenciária.

A segunda parte do romance vai narrar a vida de Alex na prisão e descrever um novo tratamento de reinserção social que o Estado propõe a ele, em troca de sua liberdade. O tal procedimento se constitui numa espécie de lavagem cerebral que induz, por uma espécie de condicionamento de choque, que o protagonista seja incapaz de todo e qualquer ato de violência. Junto a isso, no entanto, são incluídos alguns “bônus”.

A secção final do livro vai explorar as consequências da lavagem cerebral sofrida por Alex e como sua vida se desenrola após isso, o que inclui até o envolvimento em uma trama política, na qual os que fazem oposição a um governo disposto a realizar lobotomia em seus jovens não demonstram ser muito mais éticos no que diz respeito à liberdade do indivíduo.

Anthony Burgess quis discutir, como tema central de sua obra, a relação do Estado com o indivíduo, e de como políticas que podem ser aceitas em nome da segurança da comunidade podem significar a concessão de poderes a uma estrutura estatal que, sob certa aparência de cientificidade, vem a ser tão cruel quanto os delinquentes que alega combater.

Além disso, ele procura fazer uma defesa do livre-arbítrio, que, para o bem e para o mal, constitui sob muitos aspectos o que nos faz humanos. Como a condição do homem, no entanto, não é algo dado, mas em boa medida social e historicamente construída, tal característica contrasta com certa tendência recorrente de abdicar da dificuldade de realizar escolhas em nome da cessão desse poder a figuras e políticas autoritárias.

Mas Laranja Mecânica também foi alvo de críticas em sua recepção, e uma das principais dizia respeito ao que alguns consideraram o uso de violência exagerada e gratuita. E não se pode negar que mais de um terço do livro é dedicado aos atos de sadismo de Alex e sua gangue.

Burgess, no entanto, não deixou essa crítica sem resposta, alegando que a extrema violência de seu protagonista – assim como certos traços positivos de sua personalidade – também fazem parte das características humanas, cuja intensidade e expressão são mediadas por escolhas. O comportamento de Alex seria uma espécie de hipérbole, para ressaltar determinados aspectos humanos dessa fábula alucinada e pós-moderna.

Os efeitos causados pelo uso do radsak, a universalidade das discussões que levanta, os sentimentos contraditórios que provoca no leitor: acho que todos esses são fatores que demonstram o porquê da permanência do mais famoso livro de Anthony Burgess. Sendo amado ou renegado, Laranja Mecânica promete continuar sendo o que é: um clássico da literatura contemporânea.

Ficha técnica
Laranja Mecânica [1962]
Anthony Burgess (Inglaterra, 1917-1993)
Editora Aleph, 2012, 435 páginas

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