A memória como precariedade e obstinação

Imagine que você está visitando a casa de um amigo e que, em um dado momento, ele e alguns familiares se reúnem para te mostrar um antigo álbum de família. As fotos vão ser comentadas pelos parentes e em alguns momentos vão acontecer discordâncias e dúvidas sobre as circunstâncias e os fatos que aquelas imagens denotam. E tudo isso num clima de intimidade e, ao mesmo tempo, de uma certa formalidade que parece ser requerida por fotografias em preto e branco e fatos graves de uma história familiar, cujas causas obscuras se quer descobrir e compreender.

Esse não é o enredo de A Resistência, mas sim a ambiência em que o romance de Julián Fuks – ganhador do Prêmio Jabuti de 2016 – nos envolve desde a primeira página. A história trata da busca do narrador pela compreensão de seu irmão adotivo e de um impreciso conflito familiar que o envolve e vai lentamente se desdobrando para o leitor. Esse esforço de busca vai às origens da família, formada por um casal de militantes argentinos que se vê obrigado a se exiliar de seu país e viajar para o Brasil para escapar da ditadura militar.

Fuks constrói a ambiência da obra por meio de uma linguagem que recusa certo coloquialismo pedestre e investe num tom mais melancólico e poético, não perdendo, no entanto, em fluência. Baseada no que a crítica literária convencionou chamar de autoficção (relatos que misturam autobiografia e ficção, como o termo já indica), a obra também problematiza esse método ao questionar tanto a capacidade da memória em construir verdades (mesmo as factuais) que possam ser compartilhadas, assim como a capacidade da linguagem em expressá-las. Desse modo, constrói um interessantíssimo painel de relatos familiares cheios de possibilidades de sentidos: alguns descartados, outros aceitos e outros que permanecem nebulosos e imprecisos.

A “resistência” do título, assim como quase tudo nessa história repleta de trechos metalinguísticos, também reverbera em sentidos: políticos, familiares, pessoais. Obra essencial e tão oportuna para o período que vivemos, repleto de intransigência e no qual tantos de nós esquecemos de nos questionar sobre nossas sempre tão precárias verdades.

Ficha técnica:
A Resistência [2015]
Julián Fuks (SP, 1981-)
Companhia das Letras, 2015, 144 páginas.

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