Autoficção, herdeira da Modernidade

Há uma versão literária para aquelas perguntas óbvias, espécies de clichês do jornalismo, que repórteres iniciantes costumam fazer em diferentes circunstâncias. Uma das mais constrangedoras é indagar, ao familiar de uma vítima fatal, como ele está se sentindo com a morte de seu parente. Uma modalidade do jornalismo cultural para isso talvez seja questionar ao autor de um romance se o livro que ele está lançando é autobiográfico. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A pergunta que, feita de maneira descontextualizada e simplória, geralmente irrita (com razão) os escritores, pode estar relacionada, no entanto, a aspectos fundamentais da literatura ficcional. E esse é justamente um dos temas que perpassa alguns dos sete textos reunidos no livro Literatura à Margem (Editora Dublinense), conjunto de conferências de um dos mais importantes escritores brasileiros em atividade, Cristóvão Tezza.

É natural que o assunto seja tema de suas participações em eventos literários, já que Tezza angariou maior popularidade – e prêmios – com a publicação de O Filho Eterno (2008), romance no qual se inspira de maneira direta na sua experiência de pai de uma criança portadora de Síndrome de Down.
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Academicamente chamado de autoficção, o gênero ao qual O Filho Eterno se filia também está por trás de outros ótimos e recentes livros, como é o caso de A Resistência (Júlian Fúks) e da série Minha Vida, do norueguês Karl Ove Knausgard. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Tezza trata mais diretamente do assunto nas conferências “Literatura e Autorrepresentação” e “Literatura e Biografia”. Mas é bom dizer que os textos não têm um estilo estritamente acadêmico, nem se voltam para discussões classificatórias pormenorizadas e análises detalhadas de exemplos.

O escritor está mais preocupado em expor uma visão mais ampla da Literatura, sem, com isso, perder o rigor adquirido na sua prática de 20 anos como professor universitário. Desse modo, presenteia o leitor com o melhor de dois mundos: evita a aridez acadêmica e mantém integridade e aprofundamento teóricos.

É dentro dessa proposta, portanto, que Tezza também vai tratar de temas como o estatuto social da figura do escritor; o processo de perda de leitores da literatura brasileira; os fatores sociais e subjetivos da criação literária; e a história de sua formação como escritor. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Enquanto isso, também vai salpicando, aqui e ali, referências literárias, desde as leituras da infância – Arthur Conan Doyle, Júlio Verne e Monteiro Lobato –, passando por Dostoiévski, Céline e Sartre, até análises um pouco mais detalhadas, de acordo com o tema que esteja tratando, de obras de Borges e Montaigne, por exemplo.

A verdade, no entanto, é que o tema da autorrepresentação – ou autoficção, para usar o conceito em voga – parece ser transversal à maior parte das discussões que ele faz no livro. Isso ocorre porque Tezza o trata a partir do contexto da literatura moderna e desta como tendo sido possível de existir graças ao nascimento do indivíduo, ou seja, do homem moderno, numa construção simbólica e social que vem desde Montaigne e seus Ensaios, até a Enciclopédia do Iluminismo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Tezza reivindica para a literatura, aliás, um papel importante nesse projeto universalizante: “as obras da literatura moderna e contemporânea de prestígio postulam uma imagem da condição humana que, por mais profundamente diferentes que sejam […] confluem a um sentido de valorização da liberdade individual, da justiça e da dimensão ética da vida”.
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A autoficção seria, portanto, um gênero que não foge da continuidade desse processo que colocou o indivíduo no centro da vida em sociedade. E disso pode-se depreender que o gênero em si não merece julgamentos de cunho moral – como quando é acusado de narcisismo – nem se filia ao estatuto dos textos que se pretendem ligados à realidade factual, já que a moldura da ficção lhe dá outro status.

Toda literatura de ficção é e não é autobiográfica em alguma intensidade ou gradação. Mas o mais importante é que, pelo fato de ser ficção, a obra vai sempre assumir “uma forma singular de reconhecimento do mundo”, recompondo e criando sentido para “mundos possíveis”.

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