Bolaño cria enciclopédia ficcional de escritores nazistas

Em um dos contos de A Literatura Nazista na América, Roberto Bolaño descreve a história de um aspirante a escritor que começa fazendo colunas sociais para um jornal do Haiti. “Passeou seu deslumbramento e sua perplexidade pelas festas e pelos saraus das melhores residências da capital. Não há dúvida de que desde o primeiro momento quis fazer parte deste mundo”, narra. ⠀⠀

“Logo compreendeu que só havia duas manerias de ter acesso a ele: mediante a violência aberta (…) ou mediante a literatura, que é uma forma de violência dissimulada, confere respeitabilidade e, em certos países jovens e sensíveis, é um dos disfarces da ascensão social”, afirma o narrador do conto.

Tanto a literatura como a violência são presenças constantes na obra de Bolaño, temas que ele busca relacionar de forma muito direta neste seu terceiro título publicado em vida. Nele, o autor chileno escreve uma espécie de enciclopédia ficcional sobre escritores nazistas do continente, que teriam publicado suas supostas obras entre 1933 e 2010.

Em que pese o lado ficcional dos protagonistas do contos-verbetes, seus contextos e citações são, na maioria das vezes, reais. É assim que os tais escritores nazistas têm entre suas influências outros escritores que efetivamente existiram, além de viverem em momentos históricos que realmente transcorreram e conviverem com personagens que foram gente de carne e osso.

Em um dos melhores contos do livro, por exemplo, o personagem Amado Couto, integrante de Esquadrões da Morte durante a Ditadura Militar no Brasil – e escritor nas horas vagas – critica os irmãos Campos e Osman Lins, e objetiva ser uma espécie de continuador do estilo de Rubem Fonseca.

Para isso, em meio à sua admiração e inveja, chega a propor, aos colegas matadores, o sequestro do escritor famoso. Não consegue, mas transcorre anos publicando livros que ninguém lê e, neles, se sobressai o ambiente de masmorra e morte no qual está criminal e doentiamente envolvido.

Pelos contos, também passeiam nazistas que, após a Segunda Guerra, realmente se refugiaram na América Latina, como é o caso Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela operacionalização do Holocausto, e cujas atitudes e perfil inspiraram Hannah Arendt a cunhar o termo “banalidade do mal”. ⠀

A proposta do livro de Bolaño funciona como uma forma de desmitificação da arte e, mais especificamente, da literatura. Com o rosto que possui hoje, a literatura nasce com a própria Modernidade e seu projeto iluminista e universalizante. Criar uma “enciclopédia” de escritores nazistas não deixa de ser, portanto, uma espécie de paradoxo e, ao mesmo tempo, de aviso.

Não é à toa que um de seus personagens, cujo conto faz parte da seção “precursores e anti-iluministas”, tem relacionadas as seguintes obras publicadas: “Refutação a Voltaire”, “Refutação a Diderot”, “Refutação da Montesquieu”, “Refutação a Rousseau”, “Refutação a Hegel”, “Refutação a Marx e Feuerbach”. E, nesse meio tempo, ainda há espaço para “A questão judaica na Europa seguida de um memorando sobre a questão brasileira”.

Mas a estrutura enciclopédica não deixa de também se enquadrar no próprio interesse do escritor chileno pela vida literária, pelas influências, escolas, vivências cotidianas – e pelo sem-fim de referências que seus contos-verbetes trazem. Criando, assim, um jogo interpretativo ou de reconhecimentos que misturam tradições, períodos históricos e interpenetrações das mais diversas, levando inclusive à ideia de que o escritor é, antes de tudo, um leitor.

O experimentalismo incorporado no sistema enciclopédico do livro não vai agradar a todos, já que nele uma estrutura narrativa mais clássica muitas vezes se atenua frente a tópicos biográficos que, numa primeira leitura, podem parecer ter caráter meramente “informativo”. Mas a escolha não apenas se imbrica e diz muito do que viria a ser a temática da obra de Bolaño, como também desafia o leitor a deslocar o olhar para trilhar estranhos e novos caminhos, daqueles que nos levam verdadeiramente a outros destinos.

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