Carola Saavedra fala da ausência e seus muitos significados

Existe uma porção de lugares-comuns otimistas a respeito de relacionamentos, amorosos ou familiares. “Amor de verdade é para sempre.” “Quem tem uma família, tem um porto seguro.” “O bom filho à casa torna.” Mas, apesar de sermos criaturas gregárias, é claro que as relações humanas são muito mais complexas que isso e os laços que nos unem podem se romper de muitas maneiras diferentes. O bom filho pode nunca mais voltar. Uma família pode ser sinônimo de naufrágio. E o amor pode morrer ou ser morto.

Esse é um dos temas do romance O Inventário das Coisas Ausentes, de Carola Saavedra (Companhia das Letras, 2014): ausências, abandonos, fugas. Mas não é só isso. O livro tem um forte viés metanarrativo e talvez resida justamente nisso o seu aspecto mais engenhoso e instigante.

O protagonista e narrador em primeira pessoa do romance, que não é nomeado, compõe junto com Nina a dupla de personagens centrais da primeira parte do livro. Os dois se conhecem na universidade e logo viram namorados. Ela é nascida no Chile e vive no Brasil desde criança; ele, carioca e aspirante a escritor. Um dia, Nina o abandona sem dar explicações e deixa para ele uma caixa contendo seus 17 diários, nos quais conta sua história e a da sua família.

O leitor começa o livro logo conhecendo a história de Nina, um pouco de sua infância, depois vai descobrir o encontro dela com o narrador e, daí em diante, a narrativa segue numa alternância de presente – no qual é contado o relacionamento amoroso dos dois – e passado, no qual vai sendo narrada não só a história de Nina, mas também de sua família, da ascendência dela desde os bisavôs e avôs.


Some-se a isso mais dois fatores: o texto é composto por meio de fragmentos curtos e, em determinado momento, percebemos que o narrador também está escrevendo um livro, que pode ser este mesmo que se está lendo, como também pode ser outro, que estar por vir. Isso fica claro especialmente quando o narrador conversa com um amigo, Pedro, com quem dialoga sobre a obra, mas também quando conta “histórias paralelas”, que se assemelham a microcontos, com outros personagens e em outros tempos e lugares.

Todos esses fragmentos narrativos relacionam-se ao tema da ausência, citado no título. A ausência ocasionada pelo abandono da família. A ausência de pessoas que permanecem uma vida juntas, mas emocionalmente distantes. A ausência de quem deixou de ser quem era, ou esperava ser, devido à passagem do tempo. A ausência trazida por expectativas amorosas não cumpridas.

Quando o leitor chega à metade do livro, no entanto, descobre que ele é dividido em duas partes e que a segunda se chama “Ficção”. Daí voltamos para o início e lembramos que a primeira intitula-se “Caderno de anotações”. Fica claro que o que foi lido até aí era a reunião de fatos, histórias e temas para a construção desse segundo segmento.

Aí é que entra o fator mais engenhoso: proporcionar o exercício de tentar ligar o que acontece em sua primeira seção com a história que é contada na segunda. E também é nisso que se localiza um segundo sentido para o termo ausência, que é aquele relacionado à construção de uma história ficcional, que surge do que se conta, mas também do que se omite: daquelas omissões que estão implícitas no texto e de outras, que só podem ser recuperadas em seu processo de produção.

Mas também é na falta de algo que se encontra uma deficiência da obra, relacionada à sua estrutura. É que enquanto a primeira parte se assemelha ao início de um romance, a segunda tem o formato de uma novela, ou seja, trata-se de uma narrativa curta, centrada principalmente em um fato central: o difícil reencontro de um pai e um filho que não se viam há 23 anos.

Essa indefinição no formato parece ser responsável pela ausência de aprofundamento dos personagens. Isso fica mais claro na segunda parte: pai e filho se reencontram depois de décadas e parecem ser exatamente os mesmos, agem praticamente da mesma forma de quando o filho era apenas uma criança.

Essa falta de complexidade dos personagens também se encontra na primeira parte. É que a estrutura, combinada às suas poucas 128 páginas, parece não se adequar à transformação e ao aprofundamento que se espera de personagens de um romance. Isso tira parte da potência do livro, que, ainda assim, merece sim ser lido.

Ficha técnica
O Inventário das Coisas Ausentes [2014]
Carola Saavedra (Chile/Brasil, 1973-)
Companhia das Letras, 2014, 128 páginas

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