Contos reúnem parábolas feministas para explicitar opressão ao corpo da mulher

Imagine que Tim Burton tivesse nascido mulher, fosse 30 anos mais jovem e virado uma escritora em vez de cineasta. Essa escritora em início de carreira bem poderia ser a norte-americana Carmem Maria Machado, autora do livro de contos O Corpo Dela e Outras Farras, lançado no ano passado no Brasil pela Editora Planeta. Ela foi uma das convidadas da Flip de 2019.

A comparação com o diretor tem a ver com o tom gótico e fantástico que a autora dá à maioria de seus contos, e de como faz isso com competência, construindo ambientes detalhados – físicos ou psicológicos – para o desenrolar das histórias. Acrescente o caráter de fábula, tão ao gosto da escritora, e temos textos que cairiam como luva para uma adaptação cinematográfica de Burton.

Mas as fábulas de Carmen Maria Machado são essencialmente feministas. Seus contos abordam o corpo da mulher e as muitas maneiras de opressão que se abatem sobre ele, quer sejam propriamente físicas ou ligadas ao controle de regras morais ou padrões de beleza.

Isso não torna as personagens, no entanto, apenas vítimas nas histórias da autora, mas também sujeitos, inclusive no que diz respeito à vivência da sexualidade. O livro contém, aliás, muitas referências e cenas de sexo, tanto de relacionamentos heterossexuais como homossexuais. Talvez seja desse confronto entre opressão e liberdade que tenha nascido o ambíguo título da obra.

No melhor conto do livro, O Ponto do Marido, conta-se a história de uma jovem que se casa e desenvolve uma vida sexual livre e recompensadora com seu marido. Ela tem apenas uma regra no que diz respeito à intimidade dos dois: ele não pode retirar, nem tocar, a fita verde que ela sempre carrega atada por um laço, como se fosse uma gargantilha, em seu pescoço.

Esse fato simples fornece, já de início, o caráter fantástico do conto, que vai desdobrar a vida da protagonista desde o seu namoro com o futuro marido até a ida do filho à faculdade, em um ambiente que dá a ideia de um passado de algumas décadas atrás, mas cuja data não é explicitada.

Nesse percurso da personagem, vão surgindo detalhes às margens da narrativa principal que constroem, discretamente, todo um contexto de variadas opressões à mulher, que aparecem quase como se fossem normais, talvez mimetizando a maneira como se tenta naturalizá-las no mundo extra-ficcional.

Paralelo a isso, a narradora em primeira pessoa também descreve uma série de parábolas que reproduzem conceitos morais e visões de mundo relacionadas aos papéis da mulher na sociedade, usadas para que tais papéis pareçam universais e imutáveis.

É como se Carmen Maria Machado mostrasse o problema e a forma como ele se perpetua na cultura e na sociedade. E, ao mesmo tempo, oferecesse a sua própria fábula como um exemplo de histórias que precisam ser contadas e de vozes que devem ter seu lugar, para que uma mudança aconteça.

Nesse sentido, o conto se aproxima de um resumo do livro e também de uma declaração de profissão de fé da escritora. Mas também é ilustrativo de sua qualidade literária: a autora é capaz de misturar elementos como gêneros (como o fantástico e o gótico) e registros de escrita (como micro-contos e “orientações de leitura” que se aproximam das rubricas do texto teatral) com uma competente tensão narrativa.

E o desenlace das histórias, longe de levar a um apaziguamento do leitor, muitas vezes o conduzem a uma instigante reflexão, com imagens e metáforas que reverberam para bem depois de concluída a leitura. Esse é o caso não só de O Ponto do Marido, mas também das melhores histórias do livro: Mulheres de Verdade Têm Corpos, Oito Bocados e Inventário – este baseado em elementos de ficção científica (mais um gênero!).

O Corpo Dela e Outras Farras, que reúne oito contos, é apenas o livro de estreia da escritora e já foi finalista de vários prêmios literários nos Estados Unidos. Recomendo ficar de olho no que faz a autora, assim como não perder nenhum lançamento de Tim Burton.

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