Eco explica os múltiplos rostos do fascismo

O estabelecimento de ditaduras ou de regimes com práticas francamente autoritárias – inclusive no Ocidente – fez com que o termo “fascismo” voltasse a ser usado de maneira profusa, seja como componente de críticas “lacradoras” nas redes sociais, seja em artigos mais analíticos. Parte desses textos se preocupam inclusive em discutir a pertinência dos muitos usos que são dados à palavra, já que ela anda pela boca de todo mundo – e com razão – nesses tempos sombrios que vivemos.

O Fascismo Eterno, de um dos maiores intelectuais italianos do século 20, Umberto Eco, tem um duplo mérito ao tratar sobre o assunto: ao mesmo tempo em que apresenta um texto direto e didático na medida certa – esclarecendo as características fundamentais do fascismo –, também explica por que o termo é conceitualmente passível de designar uma grande variedade de regimes e discursos, às vezes com traços bem distintos uns dos outros, mas com alguns pontos em comum que lhes dão certo nível de identidade.

Assim, Eco tem o claro objetivo de contribuir para que se identifique os fascismos de hoje. Porque isso será difícil de fazer se o analista se basear apenas nas características do fascismo de Mussolini: a presença de um chefe carismático, o corporativismo, a utopia do destino fatal de Roma, a vontade imperialista de conquista de novos territórios, o nacionalismo exacerbado, a recusa da democracia parlamentar e o antissemitismo. Como diz o intelectual italiano, “por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Até aí tudo bem. Mas por que foi o fascismo, e não o nazismo ou stalinismo, que passou a ser usado de forma corrente – inclusive na época da Segunda Guerra – para denominar o mal totalitário que deveria ser combatido, onde quer que surgisse? Isso se deu porque, ao contrário do regime hitlerista e do criado por Stálin, o fascismo não se constituía de uma ideologia monolítica, mas sim uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, muitas vezes contraditórias, compondo-se como um totalitarismo impreciso.

A título de exemplificação, Eco diz: “tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico”. Mas existe sim um rol de propriedades no que o autor chama de Ur-Fascismo ou de fascismo eterno, apesar de várias dessas características se contradizerem e serem peculiares a outras formas de despotismo ou de fanatismo. Uma delas é o culto da tradição, concebida como o conhecimento advindo de algum tipo de “revelação” mística ou verdade primitiva.
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Esse culto se desdobra em outros traços: é que, como a “verdade” já foi anunciada, não pode haver avanço do saber, apenas a interpretação dessa revelação. Além disso, a própria natureza desse conhecimento “místico” não admite críticas e, portanto, o fascismo se esmera por um recusa da modernidade e do Iluminismo. Nesse contexto, o Ur-Fascismo pode ser descrito como irracionalista, já que a razão e a Ciência modernas têm como motor de seu avanço a crítica e o questionamento constantes.
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Já outra característica, o nacionalismo exacerbado, busca um sentimento de identidade baseado na criação da oposição ao outro – o imigrante, por exemplo –, frequentemente envolto em teorias da conspiração. Daí resultam xenofobias e racismos. Eco lista vários outros traços do fascismo eterno, mas, para finalizar, vou destacar apenas os seguintes: a vida vista como uma guerra permanente; o elitismo popular (“todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo”); e a concepção do povo “como uma qualidade, uma entidade homogênea que exprime `a vontade comum´”. É claro que a consequência disso é o desrespeito às liberdades individuais e aos direitos políticos, por um lado; e a defesa do grande líder como o intérprete dessa “vontade”, por outro.
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Concluo citando Eco mais uma vez: “O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo. (…) Liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja o nosso mote: Não esqueçam”.

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