Em livro que mescla ensaio e ficção, Patti Smith discute impasses do fazer artístico

Patti Smith está prestes a sair para o aeroporto quando percebe, preocupada, que se esqueceu de algo importante. “A ideia de embarcar num avião sem um livro produz uma onda de pânico. O livro certo pode servir como uma espécie de docente, dando o tom ou até alternando o rumo de uma viagem”, diz a autora logo nas primeiras páginas de Devoção, pequena e instigante obra que mistura ensaio e ficção, lançada em novembro passado pela Companhia das Letras, e que tematiza vários temas relacionados ao fazer artístico, principalmente à escrita.

Com o desenvolvimento do trecho citado acima é possível perceber um desses temas: as influências que se juntam para determinar o trabalho do autor, tendo a viagem como metáfora do processo criativo, a mala como o seu background intelectual e os livros como as inspirações que se busca, de forma mais ou menos consciente, para aquele momento.

A estrutura de Devoção é tão precisa para o que se propõe que chega a parecer uma aula, sem nunca, no entanto, se render à linguagem didática. Pelo contrário, mesmo na parte de ensaio, o livro parece ficção, e a parte de ficção assemelha-se ao trecho de um ensaio.

A história começa com Patti Smith se preparando para viajar a Paris, com o objetivo de fazer a divulgação de um de seus livros lançado na França. Ao chegar lá, a memória de visitas anteriores vêm à sua mente, junto às referências artísticas, literárias e filosóficas das quais a cidade é tão povoada: Camus, Saint-Exupéry, Voltaire. O fato de ter levado uma biografia de Simone Weil também é crucial em seu devaneio criativo, que não é premeditado, mas para o qual ela está sempre pronta, com um caderninho e uma caneta na bolsa.

A essas referências juntam-se outras: um documentário visto antes de sair em viagem, um trecho da programação da TV francesa, que assiste ao acordar no meio da noite. E em algum momento surge, de forma inesperada, a inspiração. Patti vai vertendo tudo em seu caderno, sentada no trem que a levará para a segunda parada de sua viagem: uma pequena cidade no sul da França.

Após a volta a Nova Iorque, o estilo de ensaio é interrompido e a segunda parte do livro se constitui no conto que ela começou a escrever na primeira parte. O texto leva o nome da obra, Devoção. Não vou dar detalhes porque acho que descrever seu enredo já tiraria boa parte da fruição do livro, que se constitui em fazer ligações não apenas entre os fatos vivenciados por Patti Smith e a narrativa ficcional, mas também entre as referências a outros autores e inferências sobre sua própria condição existencial e como artista.

O texto do conto tem um estilo simples e direto, no entanto, é cheio de símbolos e se aproxima do formato de uma parábola. Com a história, Patti parece indagar: quais identidades perdidas o autor procura reconstituir através da arte? E qual nova identidade surge a partir desse esforço? Foi inevitável, para mim, lembrar de uma entrevista de uma jornalista e atriz que, ao afirmar ser muito tímida, recebeu uma exclamação de incredulidade do apresentador de TV. “Mas, então, por que você escolheu essas profissões?”, ele quis saber. “Justamente por isso”, ela respondeu.

Mas Smith não para por aí. Sua protagonista também vivencia a relação entre o artista e o público, entre a arte que se quer fazer para si mesmo e a necessidade de ter sua obra apreciada – e em que intensidade. Aqui também é difícil não recordar histórias de astros do rock que, ao atingirem o estrelato, em vez de se sentirem realizados, assumem um estilo de vida autodestrutivo e chegam mesmo a vivenciar tragédias pessoais. Além disso, outra questão que toma forma com a história é: até que ponto esse artista está disposto a se adaptar às arestas que a indústria cultural lhe impõe e por que se propõe a isso?

Na terceira e última parte do livro, a escritora dá um fecho à estrutura ensaística indicando possíveis respostas para algumas dessas perguntas. É um tanto surpreendente como consegue ir tão fundo em um livro aparentemente despretensioso e curto (tem apenas 127 páginas, em formato de bolso). Mas a verdade é que não deveria haver nada de espantoso nisso: é que a letrista e poeta Patti Smith também está presente na prosadora Patti Smith.

Ficha técnica
Devoção [2017]
Patti Smith (Estados Unidos, 1946 – )
Companhia das Letras, 2019, 234 páginas.

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