Em obra poética e anárquica, Tiago Ferro fala sobre tentativa de superação da perda

Poético, iconoclasta, incômodo, delirante, crítico, irônico, político, prosaico, rudemente lírico: a variedade de facetas de O Pai da Menina Morta combina com sua estrutura e estilo fragmentados. Às vezes todos esses adjetivos se reúnem em um único trecho. E às vezes um fragmento do livro se resume a uma única palavra. Assim é o romance de Tiago Ferro, editado pela Todavia e vencedor do Prêmio Jabuti na categoria de melhor romance em 2019.
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Como o título indica, a obra descreve a morte da filha de apenas oito anos do narrador, mas também o fim do seu casamento e o mergulho no luto e na dor. A história é composta pelos caminhos percorridos pelo personagem em seu sofrimento e nas tentativas de significação e aceitação da perda – quer sejam tentativas reais, quer sejam imaginárias. Isso porque o texto tem muitas sequências perpassadas por uma ambiência onírica, o que faz com que nem sempre fique claro o que se pretende como um fato “real” ou o que faz parte da imaginação do pai.
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Apesar dessa indefinição, o romance tem muito de autoficção, já que o seu autor, o jornalista e editor paulista Tiago Ferro, perdeu a filha, da mesma idade da personagem, em 2016. O fato virou notícia e se tornou notório pela causa da morte ter sido a Influenza B, tendo composto um das dezenas de casos de óbito por tipos agressivos de gripe naquele início de ano em São Paulo.
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O próprio processo de escrita do romance faz parte do seu enredo, como, aliás, é comum em obras desse gênero, assim como o foco narrativo em primeira pessoa. Mas quem é o Pai? O aprofundamento psicológico do personagem performa a narrativa tanto por meio de fatos de sua vida como através do seu imaginário e a maneira como vê o mundo e sua própria condição.
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“Eu não quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta. Não estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio. Nós também somos feitos de espaços em branco (…) Eu sinto profundamente cada um desses espaços. São abismos internos. É preciso cuidado para não se perder”, adverte o narrador para si mesmo.

Com inspiração surrealista em seu estilo, o romance tem, além da atmosfera de sonho em vários trechos, a utilização de tipos distintos de registros de linguagem, com vários deles sendo empregados em um sentido que se aproxima da ideia de colagem, outra técnica empregada na estética dessa escola artística.
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Assim, vemos o narrador “copiar e colar” e-mails, mensagens de celular, fotos, verbetes de dicionário, formulários, citações a trechos de músicas ou poesias, além de descrever ou fazer referência a fatos do noticiário. Mas é claro que o autor apropria esses elementos dentro de sua obra, seja transformando seus textos, seja pela simples inclusão deles no contexto do romance.
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Outro recurso bastante frequente são as listas, dos mais variados tipos: das melhores músicas em língua inglesa, de partes do corpo, de obituários e até de casos de artistas e escritores famosos que perderam filhos. Aqui, o narrador busca conforto ao analisar como outras pessoas na mesma condição reagiram às suas tragédias pessoais.
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Essa busca do Pai da Menina Menina Morta – por conforto, compreensão ou pela tentativa de suportar a dor – ainda vai passar pelo sexo, pela meditação e até pelo desejo de morte. Mas não espere por um personagem autoindulgente. Ao contrário, suas tentativas são frequentemente ironizadas por ele mesmo. Quando fala de suicídio, por exemplo, ele dispara: “Eu seria lembrado como um herói. Aquele que se sacrificou para salvar a própria pele”.
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O autor empreende uma bela e anárquica obra sobre a aleatoriedade dos fatos da vida ou da falta de sentidos pré-determinados para a experiência humana. E as últimas vinte e poucas páginas são compostas por um monólogo interior que se constitui em um tour de force: tanto pela intensidade como pela exigência com o leitor, que é cobrado a uma leitura ativa para que realize associações de sentidos entre fatos, imagens e ideias que, muitas vezes, estão originalmente distantes uns dos outros. Diga-se que essa é a estreia de Tiago Ferro no romance. E que estreia!

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