Ao desconstruir ficção policial, Dürrenmatt faz crítica que ultrapassa a literatura

Determinados tipos de narrativas se repetem desde a pré-história. Os rituais místicos mais antigos eram simulações de forças da natureza, por meio das quais o homem dava uma explicação de causa ou sentido para tais fenômenos, e determinava para si mesmo a ação mágica que deveria realizar para ter algum tipo de controle sobre o incontrolável.
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Em Literatura, alguns formatos de narrativas às vezes se configuram em gêneros, como é o caso das histórias policiais, que surgiram no século 19, em um momento de intensa urbanização e também de uma representação cultural da cidade como um lugar de conflitos sociais, crimes e violência.
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A figura do detetive como o homem culto, capaz de interpretar os signos dentro da urbe e de um contexto social temerário, incorpora os ideais da razão iluminista. Mas, por paradoxal que pareça, na verdade repete-se aqui o ritual primitivo que representa um mundo por meio da linguagem para que este possa ser compreendido e, assim, controlado. As forças misteriosas – nesse caso, os crimes sem solução – podem ser “lidas” e suas consequências reparadas.
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A novela A Promessa, do suíço Friedrich Dürrenmatt, parte do formato das histórias policiais para questioná-las no que trazem de conforto catártico para o leitor. Ele nos conta a história de um escritor do gênero que, na volta de uma palestra no interior, recebe a carona de um ex-comandante de polícia, chamado Doutor H. Logo no início da viagem, ele diz para o narrador-escritor: “Vocês constroem ações de um jeito lógico (…) basta que o detetive conheça as regras e refaça os movimentos, logo ele terá (…) ajudado a justiça a triunfar. Essa ficção me deixa furioso”.
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Em seguida, o Doutor H. toma para si a voz de narrador e é ele quem vai contar sua história. Trata-se do assassinato de uma menina de seis anos e da investigação levada a cabo por um de seus subordinados, o comissário Mathäi, que depois é obrigado a repassar o caso para outro detetive. Surge um suspeito contra o qual pesam vários indícios e que chega a ser preso. Apesar de Mathäi não acreditar no seu envolvimento, os acontecimentos levam o homem a ser tido como culpado.

Acontece que Mathäi havia prometido solucionar o crime para os pais da vítima e, além disso, ao contrário de todo o sistema judiciário ao seu redor, não se conforma com as dúvidas e com a possibilidade do “verdadeiro” assassino voltar à ação. O comissário vai, então, extra-oficialmente, dar continuidade à investigação. Logo o caso se transforma numa obsessão, que vai ameaçar sua carreira e até mesmo sua sanidade.
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Na segunda novela do livro, intitulada A Pane, o representante de uma indústria têxtil, Alfredo Traps, tem seu carro quebrado quando tenta voltar para a cidade onde vive e fica preso em um povoado, onde acaba tendo de passar a noite. Na falta de leitos na pequena hospedaria local, pede abrigo na casa de um senhor aposentado, acostumado a ajudar visitantes de passagem. À noite, esse senhor recebe alguns amigos idosos que convidam Traps a participar de um estranho jogo.
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Nele, essas pessoas – um juiz, um promotor e um advogado, todos aposentados – questionam sobre fatos da vida do convidado e “brincam”, numa simulação grotesca de um tribunal, de julgar a culpa de Traps no que acreditam, a partir de premissas em princípio absurdas, ter sido um crime cometido por ele há pouco mais de um ano. A noite, regada a bebida e acompanhada de um verdadeiro banquete, se converte num jogo sombrio, mas que parece divertir a todos, inclusive ao “réu”.
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Assim como na primeira novela, também nesta Dürrenmat faz da desconstrução de um gênero – o de histórias de tribunais – um pretexto para realizar uma reflexão muito mais ampla. E que atinge não apenas esses tipos de ficções, mas o próprio sistema judicial que, apesar de todos os seus procedimentos e jurisprudências, também se baseia, em última análise, em narrativas prováveis.
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Adorno e Horkheimer, em um ensaio em que criticam a chamada razão técnica e a ciência instrumentalizada pelo positivismo, dizem que “a falsa clareza é apenas uma outra expressão do mito” e que “os homens renunciaram ao sentido e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela regra e pela probabilidade”. Esse é o tema central dessas duas brilhantes novelas de Dürrenmatt.

Ficha técnica:
A Promessa / A Pane [1956 / 1958]
Friedrich Dürrenmatt (Suíça, 1921-1990)
Editora Estação Liberdade, 2019, 224 páginas.

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