Glória se olha no espelho: ironia, paradoxos e bovarismos

Glória é, antes de tudo, um romance que desafia o seu leitor. Seja para tentar reconhecer ou entender um sem-número de citações e referências que seu autor, Victor Heringer, espalha pelo texto. Seja para perceber as muitas nuances de ironia que o perpassam do início ao fim, a começar pelo título. Seja, ainda, para tirar conclusões sobre os tortuosos caminhos percorridos pelos seus personagens. O livro ressoa na cabeça muito depois de termos terminado de ler.

O romance narra a história de uma família de classe média carioca, formada pelos pais professores universitários, Alencar e Noemi, e pelos filhos Abel, Daniel e Benjamin. Seria uma família normal, se não tivesse um costume peculiar: eles fazem piada de tudo – da religião ao dinheiro – a ponto de ser comum ouvirem do pai que a coisa mais sagrada, no lar dos Costa e Oliveira, é que nada mais é sagrado.

Tudo corre bem até a morte de Alencar, vítima de um ataque cardíaco na terça-feira de carnaval. No velório, na quarta-feira de cinzas, corre o buchicho sobre um velho mito familiar segundo o qual todos os Costa e Oliveira morrem de desgosto e que o caso de Alencar não teria sido diferente. Ele realmente havia mudado muito no último ano de vida e até parado de fazer as piadas de sempre – o que teria ocorrido depois de ler a obra completa do poeta russo Maiakovski.

Noemi vai ter as dificuldades normais de criar três crianças sozinha, mas logo consegue fazer com que a família aparentemente volte a ser a mesma, inclusive no que diz respeito ao humor. Quando crescem, cada uma vai tomar um caminho distinto. Abel, para espanto de todos, decide ser pastor e missionário na África; Daniel vira executivo de uma empresa de atividades meio suspeitas; e Benjamin se emprega em um museu, além de ser aspirante a artista plástico.

Esse é o esqueleto sobre o qual Victor Heringer vai desenrolar seus jogos de espelhos, metalinguagem, ironia, paradoxos e bovarismos – todos procedimentos e figuras de linguagem claramente relacionados ao argentino Jorge Luís Borges, influência marcante em elementos do estilo e da temática de Glória. Com a diferença que Heringer envolve tudo isso com boas doses de niilismo.

Assim, o romance oferece camadas de significados. Numa primeira, ligada à história em si, o leitor acompanha a revelação paulatina dos desajustes dos Costa e Oliveira e, junto a isso, interessantes sátiras tanto ao discurso religioso (em especial o de teor neopentecostal), relacionado à trajetória do pastor Abel, como ao discurso da crítica de arte, por meio da história do artista plástico Benjamin.

O primeiro não consegue fazer sucesso como pregador na África e retorna ao Brasil para tentar fundar sua própria igreja, com um ideário um tanto extravagante. O segundo está disposto a acabar com o casamento para ir atrás de uma mulher que sequer conhece pessoalmente, e que tenta conquistar por meio de um fórum virtual chamado Café Aleph, no qual todos os participantes usam nomes de escritores, artistas e filósofos. Nesse meio tempo, o executivo Daniel se afasta da família e pouco aparece no “miolo” do romance, voltando à baila apenas no final.

Temos aí uma história acessível e fluida, com um narrador constantemente irônico, mas que também sabe usar o humor – embora seja o humor dos céticos. Victor Heringer é um bom fabulista e a história também funciona para prender o leitor ao desenrolar da narrativa.

Mas em outra camada de significado, o romance vai tocar em temas relacionados à linguagem e teoria literária, como é o caso do questionamento do conceito tradicional de autoria, da crítica à ideia de originalidade na literatura e da valorização do papel do leitor na construção dos sentidos. É aí onde se encontra Borges, e em muitos outros lugares, inclusive citado diretamente no romance mais de uma vez.

No livro, os Costa e Oliveira contam e recontam uma mesma piada muitas vezes, mas variando seu contexto e significado, até ela perder a graça. Daí passam a usá-la como a piada de contar uma piada sem graça. Essa variação contínua de sentidos e possibilidades de leituras é justamente o que Glória nos oferece, como se fosse um jogo, proporcionando experiências diferentes a cada vez que sentamos à frente do tabuleiro. Mas, para isso, exige-se um leitor que esteja disposta a jogar. Vai topar?

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