Livro disseca métodos de movimentos e governos fascistas

Qual a relação entre a defesa da família patriarcal, a difusão de fake news, a construção de polarizações políticas e a ascensão de governos com práticas e discursos autoritários? Todos esses fenômenos se concatenam não apenas em uma visão de mundo, mas também em um conjunto de táticas para um projeto de sociedade francamente fascista.

Apesar de o uso do termo vir sendo acusado, com certa frequência, como exagero ou simples ofensa contra adversários políticos, a realidade social vem demonstrando progressivamente o contrário. O livro “Como Funciona o Fascismo: a política do nós contra eles”, de Jason Stanley, expõe esse contexto com riqueza de detalhes, de dados e fundamentação histórica.

É justamente por isso que a obra é tão alarmante, e não por que o autor faça uso de sensacionalismo ou qualquer tipo de exagero. Daí sua importância. Afinal, tais movimentos chegaram ao poder em países como os EUA, com Trump, a Rússia, com Putin, a Hungria, com Orbán, a Polônia, com o PiS, e a Turquia, com Erdogan: só para citar os exemplos mais usados por Stanley.

Como explica o autor, uma das principais bases da ideologia fascista é o “passado mítico”, ou seja, a defesa de que o país já viveu momentos de glória ou pureza – seja racial, religiosa ou cultural – e que tal passado encontra-se conspurcado pelos tempos atuais. Orbán, por exemplo, promulgou uma nova constituição para a Hungria na qual a criação do Estado húngaro é glorificada por ter sido feita por São Estêvão, há cerca de mil anos, o que fez do país “uma parte da Europa cristã”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
No Brasil, parte desse mito está certamente ligada à tentativa de uma revisão histórica da Ditadura Militar de 1964, com a ideia de que se tratou de um período sem corrupção nem violência, e com “valores morais” adequados. Junto a isso, aproveita-se da construção cultural que idealizou o país como um lugar de integração étnica harmônica para, assim, criar-se um passado que possa ser enaltecido sem ressalvas, no qual a figura central é o homem branco de origem europeia, garantidor da ordem e da hierarquia e portador de uma cultura e uma religião superiores.

Tal passado mítico está intimamente ligado ao modelo de família patriarcal, já que o fascismo defende uma sociedade fortemente hierarquizada, na qual o grande líder reproduz a figura do chefe de família, cujo poder de mando era absoluto com relação à mulher, aos filhos e empregados.

Essa concepção social torna-se mais eficiente, em termos de convencimento, por meio da construção de um inimigo nacional. Ao se erigir um padrão único a ser enaltecido e apagar-se a realidade histórica, fica fácil escolher um alvo como sendo o responsável pela perda da sociedade idílica do passado. Esse inimigo pode ser uma minoria étnica, religiosa ou um grupo político.

Neste último caso, é comum usar-se do argumento da corrupção para golpear esse “outro”, apesar de, ao ascender ao poder, o governo fascista mostrar-se tão ou mais corrupto do que aqueles que derrotou. Tais grupos, tratados como inimigos da nação, sempre são de esquerda ou formados por liberais, já que o fascismo, para manter um governo autoritário e hierarquizado, precisa solapar os movimentos progressistas e as instituições da democracia liberal.

Para ter êxito nesse projeto, duas ações são fundamentais: desacreditar o conhecimento científico e suas instituições, capazes de fazer frente à narrativa histórica mitificada e à ideologia autoritária; e a criação de um ambiente de irrealidade, por meio de mentiras e teorias da conspiração. Essas falsificações, por mais implausíveis que sejam, ajudam a alimentar o preconceito e a intolerância e a criar um ambiente de incerteza, disseminando a dúvida generalizada em que ou em quem acreditar.

A argamassa dessas táticas é a exploração do “sentimento de vitimização de grupos dominantes frente à perspectiva de ter de dividir poder e cidadania com grupos minoritários” ou subalternos. Estimulando esse sentimento, os fascistas o transformam em ressentimento e divisão da população, restando a figura do líder forte como alternativa à desconfiança generalizada. O livro de Jason Stanley combina uma linguagem direta e acessível com riqueza teórica e capacidade de síntese. Tudo isso faz de Como Funciona o Fascismo um livro obrigatório.

Ficha técnica
Como funciona o fascismo: a política do nós e eles [2018]
Jason Stanley (Estados Unidos, 1969 – )
Editora L&PM, 2019, 208 páginas.

Deixe uma resposta