McEwan cria passado alternativo para lançar luz sobre futuros possíveis

Está tudo lá: o avanço da globalização, o esvaziamento da indústria tradicional nos países desenvolvidos, o desemprego e ressentimento gerados por isso, imigração, intervenções militares em áreas periféricas do globo, perda de poder dos Estados nacionais e da política, predominância do capitalismo financeiro e sua lógica de cassino, questões de gênero, de identidade, violência contra a mulher, polarização política, etc.

Difícil imaginar um grande tema político-social contemporâneo que não seja abordado ou, pelo menos, citado no novo livro de Ian McEwan, Máquinas Como Eu. O escritor inglês parte de um assunto da ficção especulativa – a Inteligência Artificial e suas possibilidades – e em torno dele traça um painel do momento histórico atual, resumido assim no romance: “Tudo crescia – esperança e desespero, miséria, enfado e oportunidades. Havia mais de tudo. Era um tempo de abundância”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pra fazer isso, McEwan se utiliza de um tempo histórico alternativo e futurista ao mesmo tempo. A história se passa em 1982, mas nela a Inglaterra perde a Guerra das Malvinas, John Lennon está vivo e volta aos Beatles e Alan Turing não só não cometeu suicídio, como foi responsável por fazer a internet e a computação avançarem em um ritmo muito mais acelerado do que de fato aconteceu.

Tal progresso levou ao desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) e seus desdobramentos, que foram do carro autônomo à sua mais elevada forma: o humano sintético, com aparência e inteligência equiparadas às das pessoas de carne e osso. E aqui se dá o ponto de partida do romance, que é o lançamento dos 25 primeiros “artefatos” desse tipo, que foram chamados de Adão e Eva.

Um deles é comprado pelo protagonista, Charlie Friend, um sujeito de 32 anos, desempregado e que vive de pequenas aplicações no mercado de ações, o que lhe rende um “salário” modesto e lhe proporciona viver em um bairro na periferia de Londres. Apesar de formado em Antropologia – profissão que nunca exerceu – sempre foi aficionado por eletrônica e tecnologia. E foi isso o que lhe levou a usar a casa que sua mãe lhe deixou de herança para comprar o seu Adão.

Charlie tem um relacionamento inconstante com a vizinha do andar de cima, Miranda, e, apesar de se darem bem, ele se ressente de não compartilharem o nível de intimidade que deseja. Quando traz Adão para casa, preenche metade de suas configurações de personalidade e pede para Miranda fazer a outra metade. Sua expectativa é fazer com que isso os aproxime, como se estivessem unindo seus genes em um novo ser. Os três passam a conviver e Adão, em princípio, ajuda a criar esse elo, mas em seguida vai gerar desconfianças e ciúmes entre os dois humanos. Dentre outros motivos, porque descobre que Miranda esconde um grave segredo.

McEwan constrói de maneira magistral a vida cotidiana dos três: vemos como Charlie se apaixona, como tenta consolidar um relacionamento mais sério com Miranda e até a maneira como travam discussões intimamente cruéis. E o autor também tem o poder de síntese necessário para integrar essa convivência caseira com a crise política por que passa o país, depois que a incursão naval rumo às Ilhas Malvinas fora derrotada.

Nesse meio tempo, Adão se desenvolve – intelectual e emocionalmente –, o que vai ocasionar outros conflitos. Nos momentos de raiva, Charlie se recusa a conceder que o outro realmente seja portador de uma subjetividade própria e autônoma. A partir disso é que se desenrolam algumas das questões centrais do romance: o que é a consciência? Do que é feita? Poderemos inventar máquinas conscientes e mais inteligentes que nós? Quando isso ocorrer, nos tornaremos obsoletos?

McEwan se utiliza de um tempo histórico alternativo para causar um estranhamento que ilumine o tempo atual e, mais especificamente, o tema da IA, cujas consequências – positivas e negativas – já podem ser sentidas. O romance invoca o desafio de conciliar o progresso científico e tecnológico com um pensamento e uma ação éticos, que permitam que tais avanços levem ao bem-estar e não à segregação. Ao dizer que “o presente é o mais frágil dos artefatos improváveis”, o autor costura a um só tempo sua proposta narrativa e a ideia de que o futuro é uma construção humana e que deve ser visto como tal, e não como o desenrolar de forças incontroláveis.

Deixe uma resposta