Quando estar certo significa criticar sua própria “bolha”

Fazer parte de um campo político ou de uma corrente de opinião é algo que todos nós experimentamos ao longo da vida. Mas e criticar esse grupo com o qual você se identifica? Mais do que isso: e fazer dessa crítica aos erros uma militância tão marcante quanto as concordâncias com os acertos, suportando todas as consequências dessa decisão?

Essa é uma das características em comum de dois ingleses que, a primeira vista, tinham tudo para parecerem completamente opostos – e realmente o foram em muitos aspectos – mas cujas vidas demonstraram, surpreendentemente, terem tido semelhanças fundamentais. Esse é o tema de uma espécie de dupla biografia: “Churchill & Orwell: a luta pela liberdade”, do norte-americano Thomas E. Ricks, lançada em agosto no Brasil pela editora Zahar.

Enquanto o conservador Winston Churchill foi o primeiro-ministro que liderou a Inglaterra na luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, o socialista George Orwell ficou conhecido principalmente pelos romances A Revolução dos Bichos e 1984, nos quais descreve e critica enfaticamente a opressão do Estado totalitário sobre o indivíduo, inspirando-se principalmente no regime implementado por Stálin na União Soviética.

É importante lembrar que Churchill foi alçado a primeiro-ministro às vésperas do início da guerra e que foi ele a figura pública capaz de unir o país em torno da ideia da resistência ao nazismo, mesmo quando todo o restante da Europa havia sido dominado, e a maior parte dos ingleses considerava a derrota inevitável até então. A defesa organizada pelo político, ao longo de 1939 e 1940, foi fundamental para evitar a dominação alemã em todo o continente.

Já Orwell escreveu o que talvez seja a distopia mais conhecida e lida de todos os tempos. Por meio da ficção, descreveu para o mundo as entranhas do totalitarismo. Estima-se que seus livros já tenham vendido cerca de 50 milhões de cópias e, em vez de se tornar datadas, obras como 1984 continuam influenciando gerações e servindo de alerta contra o autoritarismo.

Apesar disso, tanto Churchill como Orwell foram outsiders. O primeiro passou a maior parte da década de 30 defendendo uma postura mais dura contra o nazismo e o expansionismo alemão. Isso o fez ser escanteado pelo Partido Conservador. Foi ridicularizado, preterido para cargos e quase perde o mandato parlamentar. Já Orwell viu de perto a política stanilista quando lutou na Guerra Civil Espanhola e presenciou os socialistas de um partido de inclinação trotskista serem perseguidos e mortos sob a influência da inteligência soviética. Isso o fez juntar ao seu trabalho jornalístico – focado no combate ao fascismo, nazismo e imperialismo – também a denúncia dos crimes do stanilismo.

Para ambos, a preservação dos direitos civis e políticos do indivíduo frente ao Estado foi o princípio inegociável que guiou suas ações. Isso numa época em que não foram poucos os militantes da esquerda inglesa que nutriam esperanças no regime de Stálin, nem poucos os aristocratas simpáticos ao nazismo ou que defendiam um acordo que mais parecia uma rendição.

Não se trataram de heróis infalíveis, nem pessoas sem contradições – e um dos méritos do livro de Thomas Ricks é justamente mostrar esses aspectos e evitar mitificações. Ele aborda a vida de ambos desde a infância e segue até suas mortes, mas se concentra mesmo no período entre a década de 1930 e o final da Segunda Guerra Mundial. O livro tem uma linguagem dinâmica e é lido como se fosse um agitado romance histórico. E, apesar de não se constituir numa biografia convencional, daquelas que esmiúçam cada ano da vida do personagem, tem o mérito de trazer, em muitos aspectos polêmicos, balanços muito bem embasados em obras de quem já se dedicou a isso.

O que o autor se propõe – e cumpre com louvor – é demonstrar a importância de figuras como Churchill e Orwell em tempos de ameaças autoritárias. Eles foram capazes de ver o perigo muito à frente da maioria de seus contemporâneos, sofreram pressões difíceis de suportar – principalmente porque advindas do que hoje chamaríamos de suas “bolhas” – e não exitaram em levantar suas vozes e agirem contra o totalitarismo, independente de que lado do espectro ideológico ele viesse.

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