Romance bebe do realismo mágico para narrar vida de pessoas comuns em meio à criação do Estado de Israel

No final de década de 1930, o nazismo dominava a Alemanha e judeus eram perseguidos. A área onde hoje fica Israel e a Palestina era administrada pelos ingleses, mas o movimento sionista já incentivava há tempos a imigração de judeus para a região, com o objetivo futuro de criar um Estado israelense. A presença árabe, no entanto, era predominante e grupos paramilitares de ambos os lados mantinham conflitos esporádicos e pontuais.
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É a partir desse pano de fundo que vai se desenvolver o romance Uma Noite, Markovitch, da escritora Aylet Gundar-Goshen. O contexto histórico não ocupa o centro da narrativa, nem é descrito em detalhes, mas é determinante no destino dos personagens. Para exemplificar, basta dizer que o motor principal da narrativa tem a ver com uma operação de um desses grupos israelenses, com o objetivo de proteger judeus que queriam fugir da perseguição nazista na Europa.
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A ação consistia em enviar 20 jovens militantes do Irgum – organização paramilitar que atuava na região – para uma cidade europeia, onde se casariam com 20 mulheres judias. Assim, poderiam voltar para sua terra na companhia delas e conseguir a concessão inglesa para a imigração. E sendo alcançado o objetivo, os casamentos de fachada seriam desfeitos por rabinos locais. E assim aconteceu, com quase todos.
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Iaakov Markovitch, um sujeito medíocre, a quem ninguém dava muita atenção, é o “marido” que se recusa a conceder o divórcio a Bela Zeigerman, a mais linda do grupo de mulheres que acabava de imigrar. Ele enfrenta a pressão da direção do Irgun, a recriminação dos moradores do povoado onde vive e até a de seu melhor e único amigo, Zeev Feinberg, mas, para surpresa de todos e o desespero de Bela, é inflexível como uma rocha.
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Sua esperança é que o vínculo formal que estabeleceu com a mulher mais linda que já tinha visto na vida o mantivesse ligado a ela alguma maneira, para que talvez um dia tivesse a chance de conquistá-la, por mais improvável que isso fosse.

Essa história, envolta por ações de guerrilha, tráfico de armas e guerra – mas que se concentra mesmo em amores impossíveis, filhos ilegítimos e homens e mulheres que agem e sofrem intensamente – é contada por Aylet Gundar-Gonshen com cores fortes e alegres. É que a autora israelense bebe da fonte do realismo mágico e constrói seu romance inspirado em autores latino-americanos, em especial Gabriel Garcia Marquez.
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Assim, Zeev Feinberg é um conquistador cujo bigode, símbolo de sua virilidade, é conhecido em toda a região e tem pêlos que se “comportam” de acordo com seus sentimentos. Sua noiva, Sônia, não chega a ser bonita, mas seu corpo exala um odor sedutor de laranja e sua personalidade intensa e explosiva conquista a qualquer um que a conheça melhor. Já Rachel Mandelbaun deixa o luxo e sofisticação da Áustria e, ao chegar ao porto perdida e sozinha, acaba se casando com o primeiro que vê e lhe dá atenção – o açougueiro brutamontes Avraham.
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Esses personagens se concentram em um lugarejo, pequeno povoado de agricultores, cenário central da narrativa. O arco temporal da história vai principalmente de 1938 até a guerra que criou o Estado de Israel, em 1948. Da mesma forma que o pano de fundo histórico influencia os personagens, paralelos interpretativos também podem ser feitos entre a ação deles e a fundação do país. Outra chave de leitura está relacionada às personagens femininas: todas são, à sua maneira, mulheres fortes, que reagem aos contextos a que são submetidas, a começar por Bela Zeigerman, atrelada a um homem pela força de normas religiosas.
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Uma Noite, Markovitch é daqueles romances cheios de ação, linguagem dinâmica e sentimos fortes, que pega o leitor pelo pé e o faz não querer largá-lo. São vários seus méritos e uma ótima diversão.

A leitura, no entanto, deixa a sensação de uma linguagem e movimento literário datados. A literatura de Garcia Marquez é emulada constantemente e até citada indiretamente. É uma pena, pois a autora teria ido além em originalidade se tivesse se inspirado menos em sua referência e buscado mais reinvenção na linguagem.

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