Romance discute tema da identidade em meio à cena da música africana em Lisboa

O sentimento de pertencimento e identidade é sempre um abrigo ou pode ser uma prisão? Quando ele é usado com o objetivo de excluir outros grupos? E quando tem por objetivo a busca por reconhecimento? Questões como essas se manifestam por meio de muitas das vivências dos personagens do romance Também os Brancos Sabem Dançar, do angolano Kalaf Epalanga.

O escritor emigrou para Portugal aos 17 anos por ocasião do início da guerra civil em seu país, em 1992. A primeira parte do romance trata exatamente desse período de sua vida e de seu envolvimento com a cena musical de origem africana em Lisboa. Kalaf fez parte de um grupo de música eletrônica que ajudou a divulgar a música e a dança do kuduro, originárias de Angola.

Seu livro, aliás, tem o subtítulo de “um romance musical” e o escritor dedica boa parte dele para descrever o nascimento do ritmo, seu contexto social, características, principais nomes e a maneira como, a partir de sua mistura com ritmos eletrônicos e dançantes, o kuduro se espalhou pela Europa e pelo mundo. Para isso, seu próprio grupo, o Buraka Som Sistema, teve um importante papel.

O romance é dividido em três partes. Na primeira, Kalaf é detido na fronteira entre a Suécia e a Noruega, por estar com o passaporte vencido. Ele tentava chegar a Oslo, onde ia fazer um show, num grande festival de música. Esse episódio vai sendo narrado aos poucos, porque é justamente entre um trecho e outro que as histórias da imigração do narrador e sua relação com a música vão sendo contadas. Não é sem traumas e dificuldades, diga-se, que o personagem se adapta à vida de imigrante. Como muitos, ele passa por um período sem visto de permanência, vive de subempregos e resiste em se sentir parte de uma sociedade diferente daquela de seu país de origem.

Na segunda parte, o narrador passa a ser Sofia, uma instrutora de kizomba. Filha de pai negro e mãe loira – ambos nascidos em Angola – ela vive intensamente a herança cultural de ambos, apesar de nunca ter conhecido o país. Sua mãe faz parte dos angolanos brancos que após a independência, em 1975, tiveram de se mudar para Portugal, e passaram a se sentir órfãos do país africano.

Kalaf retoma o enredo que inicia o romance na sua última seção, e também por meio de um narrador distinto: um dos policiais que o detiveram na fronteira. Aficionado por música negra americana – principalmente rap – ele vive o conflito de, seguindo uma tradição familiar, ter constituído carreira na polícia, especialmente na área de guarda de fronteira, ao invés de se dedicar de alguma forma à sua maior paixão, a música.

Todos esses personagens têm em comum o fato de lutarem para lidar ora com elementos que representam uma lacuna de uma identidade que se quer plena; ora com imposições que ajudam a compor uma identidade exterior com a qual não desejam vinculação.

Romancista estreante, Kalaf acerta na escolha de personagens que não são óbvios e que representam a complexidade de um fenômeno onipresente nos dias atuais. Mas deixa a desejar na maneira como se dedica a descrever o kuduro e outros ritmos, fazendo com que muitos trechos soem estranhos à dinâmica literária da obra, como se fossem passagens de uma pesquisa inseridas no romance e que não falam a mesma linguagem do enredo, que se desenvolve em paralelo. Além de incongruente em termos estéticos, isso torna vários segmentos cansativos para quem não é um bom conhecedor do kuduro e de outros ritmos que pairam ao seu redor.

Aliado a esse problema, muitos trechos também sofrem de um certo tom didático, o que costuma soar forçado em literatura. Isso ocorre, por exemplo, quando se explica certos aspectos do ritmo e também quando o personagem norueguês discorre sobre características da “personalidade nacional” de seu país (se é que algo assim realmente existe). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Apesar de tais problemas, o autor faz um interessante retrato das dificuldades dos indivíduos em busca de pertencimento em um mundo tão instável, tanto do ponto de vista das relações interpessoais e familiares, como das crises advindas da precarização dos direitos sociais e dos conflitos nacionais e geopolíticos. Mas nem tudo são percalços, parece nos dizer Epalanga: seu romance bem pode ser visto como uma defesa da música contemporânea como criadora de identidades mais afeitas à inclusão e à “contaminação” do que aquelas baseadas em ideias de “pureza” e “bom gosto”.

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