Romance de Ana Paula Maia emula cacoetes de cinema de ação

O sistema penitenciário brasileiro bem pode ser considerado como uma metáfora ou um elemento que faz parte de estruturas sociais mais amplas. Nele se encontram a violência e o ocultamento como políticas de Estado informais, usadas para conter setores da população historicamente excluídos e apagar os rastros de uma possível narrativa formulada por esses grupos.

É nesse contexto em que se situa o romance Assim na Terra como Embaixo da Terra (Record), de Ana Paula Maia, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018. O seu enredo, no entanto, não se baseia em um realismo mais imediato, pelo menos em um primeiro momento. Ao contrário, o presídio onde se passa a história é uma colônia penal localizada em um lugar impreciso e sem comunicação com o mundo externo.

Nesse local ermo, sobraram poucos presos e apenas dois agentes penitenciários – o diretor da colônia, Melquíades, e o seu subordinado, Taborda. Os apenados, por sua vez, não passam de 10, sendo que o romance se concentra em três deles: o meio-índio caolho Bronco Gil, o velho manco Valdênio e o matador de aluguel Pablo. A área é cercada por muros altos, encimados por cercas elétricas, e está em franca decadência.

Logo o leitor fica sabendo que a colônia penal está para ser fechada e em função disso parte de seus presos foi transferida aos poucos para outros presídios. Agora, espera-se apenas a chegada de um oficial de justiça para a sua desativação completa. Mas ele não aparece no prazo esperado e sua demora, cada vez mais prolongada, logo vira um ponto de interrogação na cabeça de todos: será mesmo que ele virá ou isso não passa de uma mentira do diretor?

O fato é que Melquíades está visivelmente enlouquecendo e o contato telefônico com o exterior não está funcionando, tendo sido ele o único a receber a notícia da vinda do oficial de justiça. Aliado a isso, a tensão da história é crescente, porque os presos remanescentes estão aos poucos “desaparecendo” e qualquer um pode ser o próximo a deixar de existir junto com a colônia penal.

Inspirado na novela de Kafka intitulada Na Colônia Penal, o romance de Ana Paula Maia tenta reproduzir uma ambiência de absurdo ao tratar de temas como a violência institucionalizada pelo Estado. A referência usada é das melhores e sua realocação para terras tropicais não é nem um pouco inadequada.

Mas a autora falha em pelo menos dois aspectos importantes. Primeiro, na necessidade que tem em explicar a narrativa. Por meio do seu narrador ou dos personagens, tudo é esclarecido de maneira explícita: desde as motivações dos abrigados na colônia, passando por analogias com o passado, até as ideias e teses que a escritora quer indicar com o romance.

Em alguns momentos, os personagens – o principal exemplo é o agente Taborda – chegam a expor de forma tão didática o que se passa com eles mesmos que parece que estamos diante de um roteiro hollywoodiano. Outro aspecto relevante é que a obra também peca na construção desses personagens, que ora não apresentam o aprofundamento que era de se esperar, ora são desenhados com motivações rasas ou com ações e atitudes incongruentes entre si.

Além disso, por vezes a prosa da escritora cai em clichês que, mais uma vez, lembram o cinema norte-americano de consumo mais imediato, com o trecho final do romance se aproximando dos cacoetes de um longa-metragem de ação.

A novela kafkiana que parece ter servido como base de diálogo e intertextualidade para Ana Paula Maia aponta para possibilidades estéticas mais ricas e instigantes do que aquelas usadas no romance. Nela, a narrativa do escritor tcheco é clara e direta, mas nunca autoexplicativa ou didática. Seus personagens não têm motivações psicológicas descritas a fundo, mas suas ações e falas são precisas a ponto de atingir uma alta voltagem simbólica.

Assim, o romance da escritora fluminense parte de uma temática de importante atualidade e de uma excepcional referência, mas não consegue levar a cabo uma obra que faça brilhar a “conversa” que se propõe a fazer com ambos – contexto social e inspiração literária.

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