Romance histórico narra o primeiro assassinato da história do Rio de Janeiro

A junção de dois gêneros literários, o romance policial e o romance histórico, é uma espécie de feijão com arroz da culinária cotidiana, ou de petit gateau das sobremesas: uma combinação de elementos que se encaixam à perfeição, gerando com frequência obras saborosas. Dois escritores contemporâneos que fizeram incursões nesse campo são o norte-americano Dennis Lehane, com Naquele Dia, e o cubano Leonardo Padura, com O Homem Que Amava os Cachorros – só para citar dois autores de histórias policiais bastante lidos no Brasil.
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Tanto um gênero como o outro têm como uma de suas características a construção de histórias sedimentadas no detalhamento minucioso do ambiente e dos fatos do enredo, o que é feito por meio da referencialidade com o mundo real. Talvez esse seja o principal motivo para essa mescla dar tão certo. E é justamente o que acontece com o romance A Primeira História do Mundo, do carioca Alberto Mussa. Mas com uma particularidade: as mitologias têm papel fundamental no universo do autor.
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O livro narra o caso do primeiro crime registrado na história do Rio de Janeiro: o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, em 1567. Nessa época, os portugueses haviam expulsado há poucos anos os franceses da Baía de Guanabara e vencido a resistência dos índios tamoios. Mas, para se resguardarem de novos ataques nativos, transferiram a cidade de uma região mais baixa para o Morro do Castelo, onde o povoamento foi cercado por uma muralha, que também abrigava um forte, além de duas ruas, uma travessa e a igreja.
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A vítima foi encontrada numa manhã de sábado, fora da cidade, numa região entre o mangue e a praia, cravada com sete flechadas nas costas (o arco também era uma arma muito usada pelos portugueses na época). No livro, as circunstâncias do crime não vão ser investigadas por alguém que viveu naqueles tempos, mas pelo próprio narrador, que convida o leitor para acompanhar a narrativa e sua própria linha de raciocínio. Ele vai tentar desvendar, por meio de documentos e do conhecimento dos dias de hoje, o que aconteceu mais de 400 anos atrás.

O miolo do romance é dedicado a descrever os nove suspeitos oficiais do crime (número exorbitante para uma população de cerca de 400 pessoas). Aqui, tem-se a oportunidade de conhecer parte significativa do perfil de quem ocupou o Brasil àquela época: fidalgos degredados, ex-piratas, aventureiros, vítimas de perseguição religiosa.
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Boa parte das suspeitas que recaem sobre eles remetem a motivos de cunho passional. Isso porque a mulher da vítima, Jerônima Rodrigues, mameluca e personagem central do enredo, foi talvez a mulher mais desejada da cidade, a ponto de ter sido causa de um duelo entre nobres, antes de se casar com Francisco da Costa.
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A narrativa, no entanto, vai além da trama do crime, sendo também um mergulho nos primórdios do Brasil colônia. Mussa descreve os tipos de moradias que os portugueses construíam no país, as relações sociais, atividades econômicas, e muitas informações de cunho histórico. Por outro lado, também esmiúça aspectos da cultura e história indígenas: a relação entre as tribos do litoral, o canibalismo, os modos e motivos relacionados à guerra, os costumes, etc.
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O escritor emprega um estilo direto e envolvente e se preocupa mais em contar a sua história do que enveredar por aspectos psicológicos. O dado subjetivo do livro, na verdade, se apresenta de outra forma: por meio do imaginário dos moradores do Brasil em meados do século 16. É que a religião, as lendas, mitos e preconceitos eram motivações fundamentais para a população – indígena e portuguesa – e levavam a consequências concretas na vida das pessoas, e também na própria história narrada por Mussa.
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Temos um romance que, se não emprega estratégias narrativas e estéticas mais ousadas, tem o mérito de conduzir o leitor por uma sedutora e dinâmica viagem por aspectos da História. O livro, claro, não deixa de também ser uma ficção. Assim, Mussa procura, baseado no passado, contribuir para enriquecer a moderna mitologia de sua cidade. Afinal, como somos seres simbólicos, apenas mudamos as lentes com as quais vemos o mundo, mas elas continuam mediando nosso olhar no século 21.

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