Em uma de suas obras mais importantes, Bolaño denuncia omissão aos crimes da ditadura chilena

“Nas horas mortas eu podia ouvi-los torturando outros; eu não conseguia dormir, e não havia nada para ler, exceto uma revista em inglês que alguém havia deixado para trás.” Essa citação retrata um acontecimento real da vida de Roberto Bolaño, apesar ser tirada de um conto de sua autoria. Em 1973, ele havia resolvido viajar do México ao Chile, sua terra natal, para militar em favor do governo de Salvador Allende. O golpe de Estado dos militares chilenos, no entanto, ocorreu poucos dias depois de sua chegada e o escritor foi preso.

Dois guardas que eram amigos de infância e estudaram com Bolaño o libertaram e ele pôde sair do Chile, mas muita gente não teve sua “sorte”. A ditadura chilena liderada por Augusto Pinochet matou cerca de 3 mil pessoas e prendeu e torturou bem mais do que isso, além de ter obrigado cerca de 200 mil cidadãos ao exílio, como foi o caso do próprio escritor. O romance Noturno do Chile tem boa parte de seu contexto histórico situado nesse período, entre a crise do governo Allende, sua violenta deposição e o governo ditatorial.

Seu protagonista é o padre Sebastián Urrutia Lacroix, que, velho e adoecido em cima de uma cama, é obrigado por uma espécie de espectro acusador a relembrar sua vida em meio a delírios. Ele também é o narrador em primeira pessoa do romance e conta sua história desde quando era um jovem clérigo e foi introduzido na cena literária por um medalhão da crítica chilena, conhecido pelo sobrenome Farewell. Por suas mãos, Urrutia vai virar tanto crítico literário incensado como também autor de livros de poesia.

E é através do padre que Bolaño vai fazer um afiado retrato daqueles que, apesar de não terem sujado as próprias mãos de sangue, compactuaram com a ascensão ao poder de um regime fascista e depois fecharam os olhos para seus crimes. Mas esse é apenas um aspecto deste pequeno livro (tem apenas 120 páginas) e grande romance, escrito no formato de um fluxo intenso e por meio de uma artesania literária delicada e, ao mesmo tempo, impactante, cheio de símbolos e metáforas pungentes.

Urrutia de certo modo se esconde na literatura, aproveitando-se dela como uma marca de distinção e de contribuição social, enquanto em sua vida pessoal vai demonstrando uma falta de empatia humana digna daqueles que se isolam em torres de marfim ou de ouro. Além disso, pouco a pouco se imiscui em fatos e ações que vão reverberar no seu momento de balanço final.
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Um espelho da degradação ética do padre é a viagem que realiza à Europa, enviado pela Opus Dei (da qual faz parte), para pesquisar formas de conservação de igrejas. Chegando lá, descobre que a principal ameaça aos templos eram as fezes dos pombos e que os párocos davam conta da situação criando falcões, para que estes exterminassem as aves, que, na tradição católica, simbolizam o Espírito Santo.
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Mais do que o comprometimento individual de Urrutia, Bolaño traz à baila a responsabilidade da Igreja frente à tomada de poder pelo governo ditatorial – o que se repetiu em vários países da América Latina. E vai além, ao questionar o próprio sentido da Literatura frente a um mundo dominado pela barbárie, neste caso específico, a barbárie de Estado.
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Urrutia talvez chegue ao seu “ápice” ao retornar ao Chile e ser convidado, na condição de intelectual, a dar aulas de marxismo para Pinochet e a Junta Militar, que governa o país com censura, extinção dos partidos políticos e toque de recolher. Os militares queriam conhecer bem a ideologia que movia seus inimigos. O padre aceita o pedido e vai instruir os generais, não sem medo de que a história se espalhe e chegue ao círculo de intelectuais do qual faz parte.
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Ao final, já na fase de redemocratização do Chile, Bolaño questiona, por meio de seu protagonista – que se pergunta se ninguém dará ouvidos ao seu fantasma acusador –, a própria capacidade da nação de lembrar dos crimes e omissões cometidos durante tanto tempo. A obra parece também querer fazer um alerta quanto a isso, inclusive quando uma das personagens justifica o desabrimento com que crimes eram cometidos naquele período dizendo que “o costume leva a relaxar toda precaução, porque a rotina matiza todo horror”.

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