Úrsula Le Guin dialoga com atmosfera de irrealidade e distopia contemporânea

A valorização do mundo onírico por meio dos psicotrópicos era uma febre nos anos 1960 e 1970, quando a norte-americana Úrsula Le Guin publicou pela primeira vez A Curva do Sonho. Apesar desse tempo ter ficado para trás, o romance ganha atualidade renovada nos dias de hoje. O motivo está relacionado ao fato de que as temáticas do sonho e da realidade simulada voltaram a ter destaque com avanços em campos da ciência.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Também contribui para certo frescor da edição a impressão de que dialoga perfeitamente com a atmosfera política de irrealidade e distopia que vivemos. Ao escrever o romance, Le Guin teve como influências as pesquisas da época – principalmente acerca do famoso sono REM –, mas também filosofias orientais como o taoísmo, outro traço marcante dos “anos rebeldes”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

É a partir dessa junção que a escritora vai tratar sobre a influência do sonho sobre o indivíduo e a sociedade, abordando-o desde o seu significado imediato até aquele mais figurativo, o de ideal a ser perseguido.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Alucinações

Na narrativa, o protagonista George Orr, um sujeito de hábitos e vida simples, desenvolve um medo intenso dos sonhos que tem. Para evitá-los, começa a tomar remédios para não dormir e, aos poucos, perde o controle, chegando mesmo a sofrer uma crise cheia de alucinações, na qual tem de ser socorrido ao hospital. Quando se constata que fez uso de medicamentos de maneira ilegal, ele é obrigado a passar por um tratamento psiquiátrico, caso não queira ser internado em um hospício.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Ao dar início às consultas com o psiquiatra William Haber, ele é levado a contar o que estava se passando. George acreditava que alguns de seus sonhos estavam se tornando realidade ao acordar, situação que o apavorava pelas consequências que podia trazer, para si e para os outros. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Sono REM

Haber, que além de psiquiatra é cientista, o submete a um tratamento, fazendo uso de um equipamento que está desenvolvendo e que permite ao paciente chegar, de maneira mais rápida e assistida, ao sono REM –  aquele em que se dão os sonhos mais intensos e bem elaborados.

A trama começa a se desenrolar quando se percebe que o próprio médico talvez esteja acreditando na versão de George. O motivo central desse enredo não é nenhuma grande novidade, mas isso é compensado pela narrativa instigante e pela “decantação” que a escritora realiza das personalidades dos dois protagonistas, que funciona muito bem durante a maior parte da história.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Pulsões e desejos

Além disso, o romance avança pelas sendas dos sonhos como resultado das nossas pulsões e desejos armazenados no subconsciente. A teorização de Freud em torno da possibilidade de interpretação desses sonhos, que já foi tão desacreditada pela medicina tradicional, vem se confirmando de maneira inequívoca pelas pesquisas da Neurociência nas últimas décadas. Daí a contemporaneidade renovada que a obra possui.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Outro motivo para isso é a realidade virtual e simulada, cujos avanços têm assustado filósofos e pensadores, que veem nela a possibilidade de criação de ambientes em que sejamos incapazes de determinar o que é ou não realidade. Em um mundo em que bolhas e algoritmos de redes sociais contribuem para o estabelecimento de “verdades” paralelas, talvez a fantasia de Le Guin não esteja tão distante de 2022.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

É importante dizer, no entanto, que o romance dá uma tropeçada a partir do seu terço final, ao pesar um pouco a mão no esquematismo das teses que propõe e na transformação do personagem William Haber. Também não possui a mesma densidade das principais obras da autora, se constituindo numa trama mais leve e menos ambiciosa em comparação com romances como Os Despossuídos e A Mão Esquerda da Escuridão.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Mesmo assim, se trata de uma narrativa competente, que engaja o leitor e propõe reflexões importantes. Só para citar uma delas, poderia se dizer que Le Guin interroga: até que ponto uma utopia (ou o “sonho” de uma sociedade diferente) continua a ser utopia se precisa ser imposta? Ou, em outros termos: como saber se uma utopia não é/virou, na verdade, uma distopia? 

Ficha técnica
A Curva do Sonho [1971]
Úrsula K. Le Guin (EUA, 1929 – 2018)
Editora Morro Branco, 2019, 224 páginas

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