Böll faz libelo contra imprensa sensacionalista e intoxicação do debate público

Notícias falsas, deturpações, reiterações de preconceitos, além do estímulo a um discurso de ódio – nada disso é novidade trazida pelas redes sociais. Antes delas, certo tipo de jornalismo, ancorado nos meios de comunicação de massa, já cumpria esse papel de intoxicar o debate público. E deixava suas vítimas pelo caminho, com vidas destruídas – como se fossem um sinistro sinal do que pode acontecer de maneira mais ampla com toda uma sociedade.

Talvez esse seja um resumo adequado do tema central do romance A Honra Perdida de Katharina Blum, do escritor alemão Heinrich Böll (ganhador do Nobel de 1972), publicado originalmente em 1974 – mas tão atual como se tivesse sido ontem – e lançado no Brasil no início do ano, pela editora Carambaia.

Katharina Blum teve um pai que voltou da guerra em frangalhos, uma mãe negligente e com problemas com bebida e um irmão que foi preso e condenado pela Justiça por cometer pequenos crimes. Ela, ao contrário, conseguiu ser autocentrada, trabalhadora e persistente. Atuou como funcionária em bufês, bares e restaurantes e se formou numa espécie de curso técnico de governanta: foi, enfim, a sobrevivente de uma família desestruturada.

Apesar da origem e formação humildes, a personagem conseguiu prosperar e, com a ajuda dos patrões – um advogado e uma arquiteta bem-sucedidos –, teve êxito em financiar um apartamento e comprar um Volkswagen usado, que utilizava para se deslocar para os vários serviços extras que obtinha nas horas vagas. Katharina também era a personificação do milagre econômico pelo qual o país passava, algumas décadas após toda a destruição trazida pela 2ª Guerra Mundial.

Böll não narra essa história de maneira cronológica. Ao contrário, o início do romance já mostra Katharina enredada em um caso policial, dando uma série de depoimentos e sob a suspeita de ter ajudado um perigoso e procurado criminoso, desertor do Exército e assaltante de banco, a fugir das autoridades. Mas por que ela teria feito isso? Qual a sua relação com esse homem? Ela teria alguma participação em seus crimes?

Não existiam informações conclusivas para nenhuma dessas perguntas, mas isso não vai ser suficiente para que o maior jornal sensacionalista do país, denominado apenas como o JORNAL, deixe de provocar um vendaval em sua vida. Com base em suposições, deturpações de entrevistas e mentiras, Blum é chamada de “amante de ladrão”, acusada de ter obtido seus bens de maneira ilícita e de ter uma personalidade de alguém “perfeitamente capaz de cometer um crime”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Böll conta essa história empregando uma linguagem que em tudo se afasta do estilo sensacionalista. Assim, se recusa a criar uma narrativa com detalhes de violência física ou na qual a ação de perseguição a Götten seja algo relevante – seu livro é uma espécie de anti-thriller policial. O tom do narrador, em terceira pessoa, é sensato e racional, embora nunca indiferente. Ao unir estética e ética, o escritor cria o clímax da obra numa cena em que as relações de poder do enredo, em vários níveis, são reveladas.

É importante explicar que o JORNAL é uma referência direta ao Bild, até hoje o periódico de maior tiragem da Alemanha. Böll escreveu o romance depois de se engajar em uma polêmica contra o jornal, porque ousou questionar seus métodos. Assim, virou ele próprio alvo do jornalismo sensacionalista e conservador, por defender informações baseadas em provas e garantias individuais como a presunção de inocência, direito à privacidade e proteção contra calúnias e difamações.

O enredo do romance, na verdade, ressoa um contexto social mais amplo, que tinha relação, dentre outros fatores, com a Guerra Fria e uma polarização política que gerava atos de violência oriundos de várias posições do espectro político. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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O esgarçamento do tecido social trazido por certa mídia sensacionalista e mentirosa, voltou com força nos últimos anos, inclusive no Brasil. Uma situação que só fez piorar quando esse discurso repercutiu nas redes sociais. Por isso, o livro soa como um triste retrato em preto e branco dos dias atuais. O alvo, que ilustra a capa da edição brasileira, parece poder se voltar contra qualquer um, inclusive para o futuro de todo um país.

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