Estreia de escritora catalã mostra potencial, mas resultado é irregular

Aprender a Falar Com as Plantas é o romance de estreia da escritora catalã Marta Orriols, e tem mesmo um jeitão de livro de estreante. Diga-se que a obra tem várias qualidades, no entanto o sentimento predominante é que o potencial que surge daí não se realiza na extensão que poderia ter tido. Ainda assim fiquei satisfeito por conhecer a autora.

Para início de conversa, os pontos marcados por Orriols: ser capaz de expressar uma rica vida íntima de sua protagonista e mostrar-se hábil o suficiente para manter uma boa tensão narrativa, mesmo em se tratando de uma história pé no chão, sem grandes arroubos de fabulação. Já os pontos negativos estão relacionados a uma escrita um tanto “verde” ou chapada, e a uma carência de verossimilhança na construção do ambiente externo à sua personagem.

O romance se volta para a temática do luto a partir do ponto de vista de uma médica neonatologista, de meia idade e moradora de Barcelona, que perdeu o marido recentemente. Ela é a narradora em primeira pessoa, contando sua própria história como se o fizesse para o marido que se foi. Apesar dessa escolha arriscada – ficaria muito fácil cair em algo brega ou sentimental demais – Orriols pula bem essa armadilha.

E esse tento deve-se à médica Paula: uma personagem que em quase tudo se afasta de um perfil sentimental. Ela vai esmiuçar – aos poucos e da maneira insistente que a perda de alguém nos provoca – o que acontecia em sua vida e na de Mauro logo antes da tragédia, o que inclui uma informação fundamental para a originalidade do enredo, mas que prefiro não explicitar aqui.

Experiência do luto

Para além dos lugares-comuns das condolências, a experiência do luto pode ser cheia de memórias e sentimentos contraditórios, saudades e culpas, idealizações e rancores. E sempre proporciona uma busca para se adaptar a um novo mundo, marcado pela ausência, e para descobrir o que pode ser feito para seguir em frente. Ao retratar essa experiência íntima de forma autêntica, o romance tem seus melhores momentos.

O entorno da protagonista, por outro lado, nos leva ao problema da verossimilhança. Isso acontece principalmente nos trechos que se passam no hospital onde Paula trabalha, como médica de uma UTI neonatal. Orriols parece ter feito uma pesquisa razoável para isso. E o problema é justamente esse: em vários momentos essa pesquisa salta aos olhos, em vez de se integrar à história como algo natural.

Esse aspecto tem pontos de contato com uma estética textual que soa incipiente. É como se a autora caísse, com certa frequência, em uma escrita que se aproxima à de um diário comum, com descrições um tanto óbvias ou construções frasais pobres. No entanto, é bom ressaltar, isso se alterna com bons momentos, o que gera a impressão geral de uma obra irregular.

O romance ainda se estende para o ambiente social e familiar de Paula e sua convivência nesses meios. Aqui temos no seu pai, viúvo, outro importante personagem, e também há a sogra, uma melhor amiga, um vizinho, etc. Alguns são melhor desenvolvidos do que outros, mas Orriols não dota nenhum deles de um nível de complexidade parecido ao que consegue com a protagonista.

Saldo positivo

No fim, acho que o saldo do romance é positivo porque a autora consegue relacionar as qualidades citadas com recursos que proporcionam um ritmo dinâmico para a narrativa, mesmo em se tratando de uma obra intimista.

Aprender a Falar Com as Plantas foi editado pelo clube de assinaturas TAG Livros em parceria com a Editora Dublinense, no mês de outubro. O livro está previsto para ser lançado fora do clube de assinaturas em 2022, pela mesma Dublinense.

Ficha técnica
Aprender a Falar Com as Plantas [2018]
Marta Orriols (Espanha, 1975 – )
TAG Livro/Editora Dublinense, 2021, 248 páginas

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